Sou

{São Paulo, 1987}


Depois da maior aflição,
No mais distante exílio,
Onde amparei bêbados e desajustados,
Estive em cada dor,
Em feridas acesas.
Ferida acesa…
Eu fui.
Vi homens brigando pelo poder.
Vi homens com fome.
Entrei em cidades a galope.
Não temi o mais forte.
O sol queima o rosto dos homens do campo.
Homens entregam a vida ao trabalho.
Uma tempestade de coisas acontece na cidade.
Com os carinhos da minha língua,
Tento despertar uma prostituta,
Mas ela recusa a vida que tem dentro.
Palavras cortantes
Passam pelos meus dentes.
Uma porrada no olho de um canalha.
O céu no campo.
O céu no centro da cidade.
O céu em São Paulo.
O céu em São Paulo.
A nossa língua.
“a minha pátria é minha língua” (*)
Minha língua sou eu.
Caminho com Maiakóvski ao meu lado.
Ele está em silêncio.
A chuva molha meus olhos.


(*) Frase de Caetano Veloso

Nenhum comentário:

Postar um comentário

  • © 2010 - Todos os direitos reservados - Desenvolvido por Vivian Renata Magalhães